Menopausa e saúde cognitiva: existe relação entre estrogénio, memória e risco de demência?

Durante a perimenopausa e menopausa, muitas mulheres relatam alterações cognitivas, como:

  • dificuldade de concentração
  • lapsos de memória
  • sensação de “mente mais lenta”

Estas queixas são frequentes e podem gerar preocupação, sobretudo pelo receio de estarem associadas a doenças neurodegenerativas.

No entanto, na maioria dos casos, estas alterações não estão relacionadas com risco de demência, mas sim a mudanças transitórias associadas a esta fase da vida.

O papel do estrogénio no cérebro

O estrogénio não atua apenas no sistema reprodutor, tem também um papel relevante no funcionamento cerebral.

Está envolvido em:

  • modulação de neurotransmissores
  • plasticidade neuronal
  • memória e aprendizagem
  • regulação do humor

A sua ação estende-se a diferentes áreas do cérebro, influenciando diretamente circuitos relacionados com a cognição e o processamento emocional.

Em particular, o estrogénio tem um impacto relevante no hipocampo, uma estrutura essencial para a formação e consolidação da memória.

Porque surgem alterações cognitivas na menopausa?

Durante a perimenopausa, os níveis de estrogénio tornam-se irregulares, o que pode influenciar o funcionamento cerebral.

Estas alterações podem traduzir-se em:

  • dificuldade de concentração
  • menor clareza mental
  • lapsos de memória

No entanto, é importante compreender que estas queixas não dependem apenas das hormonas.

Fatores frequentemente associados a esta fase também têm um impacto relevante, como:

  • perturbações do sono
  • afrontamentos
  • ansiedade ou alterações de humor
  • cansaço físico e mental

Assim, muitas das alterações cognitivas resultam de uma combinação de fatores hormonais e não hormonais.

Alterações cognitivas ou demência: qual a diferença?

É fundamental distinguir alterações cognitivas transitórias de sinais de doença neurológica.

Alterações cognitivas associadas à menopausa

  • geralmente leves
  • flutuantes
  • não progressivas
  • não comprometem a autonomia

Doença neurodegenerativa

  • progressiva
  • persistente
  • com impacto funcional no dia a dia
  • associada a perda de autonomia

Na maioria das mulheres, as alterações cognitivas nesta fase são temporárias e reversíveis.

Menopausa e risco de demência

A menopausa, por si só, não causa demência.

O risco de desenvolver doença neurodegenerativa depende de múltiplos fatores, incluindo:

  • idade
  • genética
  • saúde cardiovascular
  • estilo de vida

De acordo com a literatura, 60% dos casos de demência são passiveis de ser prevenidos!! 

O cérebro é altamente influenciado pela saúde global do organismo, e até à data  foram já identificados 14 factores de risco modificaveis, nomeadamente a hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade, menor escolaridade, deficit auditivo, perda de visão, sedentarismo, consumo regular de álcool, depressão, isolamento social, antecedentes de traumatisomo craneano, poluição e aumento de LDL. 

Terapêutica hormonal e função cognitiva

Uma dúvida frequente é se a terapêutica hormonal pode melhorar a memória ou prevenir demência.

A evidência científica atual sugere que:

  • a terapêutica hormonal não deve ser utilizada com o objetivo de prevenir demência
  • pode melhorar sintomas que afetam indiretamente a cognição, como o sono e os afrontamentos
  • o momento de início da terapêutica pode influenciar os seus efeitos

Em algumas mulheres, a melhoria da qualidade do sono e do bem-estar geral pode traduzir-se numa perceção de melhor desempenho cognitivo.

O que pode ajudar a proteger a saúde cognitiva?

Independentemente da terapêutica hormonal, existem estratégias com forte evidência científica que contribuem para a saúde cerebral:

  • atividade física regular
  • alimentação equilibrada, como o padrão mediterrânico
  • sono de qualidade
  • estimulação cognitiva
  • controlo de fatores de risco cardiovascular

Estas medidas têm um impacto significativo na prevenção do declínio cognitivo ao longo da vida.

Conclusão

As alterações cognitivas durante a menopausa são frequentes e, na maioria dos casos, não estão associadas a doença neurológica.

O estrogénio desempenha um papel importante no funcionamento cerebral, mas as queixas cognitivas nesta fase resultam de uma combinação de fatores hormonais, emocionais e relacionados com o estilo de vida.

Compreender estas mudanças permite reduzir a ansiedade associada a estes sintomas e tomar decisões mais informadas sobre a saúde.

Alterações cognitivas na menopausa são comuns, mas merecem uma avaliação médica adequada para excluir outras causas e contextualizar riscos reais.

Uma abordagem individualizada permite distinguir alterações transitórias de situações que necessitam de acompanhamento específico.

 

Veja também: Menopausa e saúde cardiovascular: como proteger o coração nesta fase da vida

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