Porque existe tanta confusão sobre hormonas bioidênticas
Nos últimos anos, o termo “hormonas bioidênticas” tornou-se cada vez mais popular quando se fala de tratamento para os sintomas da menopausa.
Na internet e nas redes sociais, estas hormonas são muitas vezes apresentadas como algo completamente diferente da terapêutica hormonal tradicional, o que acaba por gerar dúvidas e até alguma desinformação.
Na realidade, as hormonas bioidênticas representam um avanço importante na terapêutica hormonal da menopausa, uma vez que têm uma estrutura molecular idêntica à das hormonas produzidas naturalmente pelo organismo.
Em Portugal, a terapêutica hormonal da menopausa utiliza frequentemente hormonas bioidênticas regulamentadas, como o estradiol e a progesterona micronizada, disponíveis em medicamentos aprovados e sujeitos a rigorosos processos de controlo de qualidade, segurança e eficácia.
Se quiser compreender melhor o que são hormonas bioidênticas e quais os seus benefícios na menopausa, pode ler também: https://draandreaquintas.pt/hormonas-bioidenticas-menopausa-beneficios-seguranca/
Existem também outras hormonas com estrutura molecular diferente das hormonas naturais, utilizadas em algumas formulações hormonais. Em determinadas situações clínicas, algumas mulheres podem utilizá-las com bons resultados.
Por essa razão, a terapêutica hormonal deve ser sempre individualizada, tendo em conta os sintomas, o historial clínico e as necessidades de cada mulher.
No entanto, quando se fala de hormonas bioidênticas, grande parte da confusão surge por outro motivo.
Frequentemente misturam-se dois conceitos distintos:
- hormonas bioidênticas regulamentadas
- hormonas bioidênticas manipuladas
Compreender esta diferença é essencial para tomar decisões informadas sobre a terapêutica hormonal na menopausa.
Hormonas bioidênticas regulamentadas vs manipuladas: qual a diferença?
Hormonas bioidênticas regulamentadas
As hormonas bioidênticas regulamentadas são medicamentos aprovados pelas autoridades reguladoras do medicamento, como a Agência Europeia de Medicamentos (EMA).
Estes medicamentos passam por processos rigorosos de avaliação científica, que incluem:
- ensaios clínicos de eficácia
- estudos de segurança
- controlo rigoroso de qualidade farmacêutica
- doses padronizadas e consistentes
Na terapêutica hormonal da menopausa, os exemplos mais utilizados incluem:
- estradiol, a principal forma de estrogénio
- progesterona micronizada, utilizada para proteger o endométrio nas mulheres com útero
Estas formulações estão disponíveis em diferentes apresentações, permitindo adaptar o tratamento às necessidades de cada mulher.
Hormonas bioidênticas manipuladas
As chamadas hormonas bioidênticas manipuladas são preparações feitas em farmácias de manipulação, de acordo com a prescrição médica.
Podem ser apresentadas sob várias formas, como:
- cremes
- cápsulas
- loções
- preparações sublinguais
Estas formulações são frequentemente promovidas como terapias “personalizadas” ou “mais naturais”.
No entanto, estas preparações não passam pelo mesmo processo de aprovação regulatória que os medicamentos.
Isto significa que:
- não existem os mesmos estudos clínicos de eficácia e segurança
- pode existir variabilidade na dose hormonal
- o controlo de qualidade não é equivalente ao dos medicamentos aprovados
O que dizem as sociedades científicas
Diversas sociedades científicas internacionais têm abordado esta questão nas suas recomendações clínicas.
Entre elas destacam-se:
- North American Menopause Society (NAMS)
- British Menopause Society (BMS)
- European Menopause and Andropause Society (EMAS)
De forma consistente, estas organizações recomendam preferir hormonas bioidênticas regulamentadas, sempre que disponíveis.
As guidelines salientam que as preparações manipuladas:
- não apresentam os mesmos padrões de qualidade
- carecem de evidência científica robusta
podem apresentar variações na dose
Consenso do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG)
Um dos documentos mais recentes sobre este tema é o ACOG Clinical Consensus No. 6, publicado em 2023 pelo American College of Obstetricians and Gynecologists.
Este documento analisa a evidência científica disponível sobre preparações manipuladas de hormonas bioidênticas e conclui que:
- muitas destas terapias são promovidas como mais naturais ou personalizadas
- não existem evidências robustas que demonstrem maior segurança ou eficácia
- estas formulações não passam pelos mesmos processos de aprovação e controlo de qualidade dos medicamentos regulamentados
Por essa razão, o consenso afirma que as hormonas bioidênticas manipuladas não devem ser prescritas de forma rotineira quando existem formulações hormonais aprovadas pelas entidades reguladoras.
🔗 Referência científica
ACOG Clinical Consensus No. 6
Compounded Bioidentical Menopausal Hormone Therapy
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37856860/
A importância da via de administração
Outro aspeto relevante na terapêutica hormonal da menopausa é a via de administração da hormona, que pode influenciar o perfil metabólico e o risco de alguns efeitos adversos.
Via oral
Quando o estrogénio é administrado por via oral:
- passa primeiro pelo fígado
- pode promover a produção de de coagulação
- pode alterar alguns marcadores metabólicos
Via transdérmica
Quando o estradiol é administrado através da pele (gel, adesivo ou spray):
- evita o metabolismo hepático inicial
- tem menor impacto nos fatores de coagulação
- associado a menor risco trombótico
Por esta razão, a via transdérmica é frequentemente preferida em mulheres com fatores de risco cardiovascular ou trombótico.
Via vaginal
Existem também formulações hormonais de uso vaginal, utilizadas sobretudo para tratar sintomas geniturinários da menopausa, como:
- secura vaginal
- dor nas relações sexuais
- irritação ou desconforto vaginal
Estas formulações atuam principalmente a nível local.
A terapêutica hormonal deve ser sempre individualizada
Embora existam recomendações gerais baseadas em evidência científica, a decisão de iniciar terapêutica hormonal deve ser sempre individualizada.
Cada mulher apresenta um perfil clínico próprio, que inclui:
- sintomas
- idade
- tempo desde a menopausa
- fatores de risco pessoais, nomeadamente cardiovasculares
- antecedentes familiares
Por esse motivo, a escolha da hormona, da dose e da via de administração deve ser feita em conjunto com um médico com experiência na área da menopausa.
Conclusão
As hormonas bioidênticas representam hoje uma parte importante da terapêutica hormonal moderna da menopausa, estando disponíveis em medicamentos aprovados e amplamente utilizados na prática clínica.
Em Portugal, estas hormonas são utilizadas em formulações regulamentadas, com qualidade farmacêutica controlada e evidência científica sólida.
No entanto, é importante distinguir entre:
- hormonas bioidênticas regulamentadas, que passam por rigorosos processos de avaliação científica
- preparações manipuladas, que não apresentam o mesmo nível de evidência e controlo regulatório
Quando bem indicada e acompanhada por profissionais de saúde experientes, a terapêutica hormonal pode ser uma ferramenta segura e eficaz para melhorar a qualidade de vida durante a menopausa.
A decisão de iniciar terapêutica hormonal deve ser sempre individualizada e baseada em evidência científica. Se tem dúvidas sobre os sintomas da menopausa ou sobre as opções de tratamento disponíveis, procure aconselhamento médico ou marque uma consulta para avaliar qual a abordagem mais adequada ao seu caso.


