Porque ainda existem tantos mitos sobre a terapêutica hormonal
Apesar de ser uma das terapêuticas mais estudadas na medicina da mulher, a terapêutica hormonal da menopausa (THM) continua rodeada de dúvidas e receios.
Grande parte destes mitos surgiu após a divulgação inicial dos resultados do estudo Women’s Health Initiative (WHI) no início dos anos 2000. Na altura, algumas conclusões foram interpretadas de forma precipitada e simplificada, o que levou muitas mulheres e até alguns profissionais de saúde a associarem a terapêutica hormonal a riscos elevados.
Desde então, a investigação científica evoluiu significativamente e hoje dispomos de dados muito mais claros sobre os benefícios e riscos da terapêutica hormonal, permitindo decisões mais informadas e individualizadas.
Conheça alguns dos mitos mais comuns.
Mito 1: A terapêutica hormonal é perigosa para todas as mulheres
Este é provavelmente o mito mais frequente.
Na realidade, a segurança da terapêutica hormonal depende de vários fatores, incluindo:
- idade da mulher
- tempo desde o início da menopausa
- tipo de hormona utilizada
- dose e via de administração
- perfil de risco individual
As evidências atuais mostram que, quando iniciada em mulheres saudáveis e nos primeiros anos após a menopausa, a terapêutica hormonal apresenta uma relação benefício-risco favorável.
Este conceito é conhecido como “janela de oportunidade”.
Mito 2: A terapêutica hormonal aumenta sempre o risco de cancro da mama
Uma das maiores preocupações das mulheres quando se fala em terapêutica hormonal da menopausa é o possível risco de cancro da mama.
No entanto, a evidência científica atual mostra que a relação entre terapêutica hormonal e cancro da mama é mais complexa do que muitas vezes é apresentado.
O risco pode variar de acordo com vários fatores, incluindo:
- o tipo de hormonas utilizadas
- a duração do tratamento
- a idade da mulher
- o tempo desde o início da menopausa
- o perfil individual de risco
Por exemplo, os dados do estudo Women’s Health Initiative (WHI) mostraram que a terapêutica combinada com estrogénio e progestativo pode estar associada a um pequeno aumento do risco de cancro da mama quando utilizada durante vários anos.
No entanto, o mesmo estudo demonstrou que o estrogénio isolado não aumentou o risco de cancro da mama nas mulheres que tinham sido submetidas a histerectomia.
Além disso, é importante compreender que este risco é geralmente pequeno em termos absolutos e deve ser interpretado no contexto de outros fatores que também influenciam o risco de cancro da mama, como:
- idade
- obesidade
- consumo de álcool
- sedentarismo
Por essa razão, as principais sociedades científicas internacionais recomendam que a decisão de iniciar terapêutica hormonal seja sempre individualizada, avaliando cuidadosamente os benefícios e os potenciais riscos para cada mulher.
Mito 3: A terapêutica hormonal serve apenas para tratar afrontamentos
Embora os afrontamentos e suores noturnos sejam uma das indicações mais conhecidas da terapêutica hormonal, os seus benefícios podem ir além disso.
A terapêutica hormonal pode contribuir para:
- melhoria da qualidade do sono
- redução da secura vaginal
- melhoria da qualidade de vida
- preservação da densidade mineral óssea
Em algumas mulheres, pode também ajudar a reduzir o risco de fraturas relacionadas com a osteoporose.
Mito 4: A terapêutica hormonal provoca sempre aumento de peso
O aumento de peso é uma preocupação frequente entre mulheres na transição para a menopausa, e muitas vezes é atribuído à terapêutica hormonal.
No entanto, a evidência científica mostra que o aumento de peso nesta fase da vida está sobretudo relacionado com alterações metabólicas associadas ao envelhecimento e à própria menopausa, e não necessariamente com a terapêutica hormonal.
Durante a menopausa ocorre uma redução dos níveis de estrogénio, que pode favorecer alterações na composição corporal, incluindo maior acumulação de gordura abdominal.
Alguns estudos sugerem que a terapêutica hormonal pode até ajudar a reduzir a redistribuição de gordura central associada à menopausa, contribuindo para uma composição corporal mais favorável.
Manter hábitos de vida saudáveis, como atividade física regular, alimentação equilibrada e sono adequado, continua a ser um dos fatores mais importantes para o controlo do peso nesta fase da vida.
Mito 5: Não se pode iniciar terapêutica hormonal depois de certa idade
A idade e o tempo desde o início da menopausa são fatores importantes na avaliação da terapêutica hormonal.
As evidências atuais sugerem que a terapêutica hormonal apresenta uma relação benefício-risco mais favorável quando iniciada nos primeiros anos após a menopausa, conceito frequentemente referido como “janela de oportunidade”.
Isso não significa, no entanto, que exista uma idade fixa a partir da qual a terapêutica hormonal seja automaticamente contraindicada.
Cada situação deve ser avaliada de forma individualizada, considerando:
- sintomas da mulher
- estado de saúde geral
- fatores de risco cardiovascular
- historial médico
Em algumas situações, mesmo mulheres que iniciam tratamento mais tarde podem beneficiar de abordagens terapêuticas adequadas.
Mito 6: A terapêutica hormonal não deve ser utilizada durante muito tempo
A duração da terapêutica hormonal deve ser sempre avaliada caso a caso.
Algumas mulheres utilizam a terapêutica durante alguns anos para controlo dos sintomas da menopausa, enquanto outras podem necessitar de acompanhamento durante períodos mais prolongados.
As recomendações atuais sugerem que o tratamento deve ser reavaliado regularmente, tendo em conta:
- a evolução dos sintomas
- os benefícios obtidos
- o perfil individual de risco
O objetivo é sempre encontrar a abordagem terapêutica mais adequada para cada mulher, garantindo segurança e qualidade de vida.
Conclusão
A terapêutica hormonal da menopausa é uma das áreas mais estudadas da medicina da mulher.
Apesar disso, continuam a existir muitos mitos que podem gerar receio ou confusão.
A evidência científica atual mostra que, quando bem indicada e acompanhada por profissionais de saúde experientes, a terapêutica hormonal pode ser uma ferramenta segura e eficaz para melhorar a qualidade de vida durante a menopausa.
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